Dias atrás postei no Facebook um comentário no qual eu criticava o fato das pessoas no Brasil serem rápidas para apontar os erros quando alguém escreve algo em inglês. Erros que acontecem pelo fato das pessoas não editarem aquilo que escrevem (digitam) rapidamente. Portanto, é normal que algo digitado em inglês (ou mesmo em português) possa sair errado. É inevitável.
Mas que tipos de erros são esses que deixam as pessoas tão ansiosas para esfregar na cara de quem errou o fato de que elas erraram? O que eu tenho notado é que esses erros são erros de menor intensidade e que não impedem o ato comunicativo em si. Ou seja, tratam-se de erros que qualquer pessoa corre o risco de cometer. Alguns exemplos desses supostos “erros” são os que seguem abaixo:
- Give me a word that strats with (erro de digitação conhecido em inglês como typo)
- No one have (erro de concordância, o correto é ‘no one has’)
- It look likes (vício de linguagem, o correto é ‘it looks like’)
- She going to send (erro de omissão, faltou usar a palavra ‘is’ em ‘she is going’)
É incrível como as pessoas presas às regras gramaticais são rápidas para apontar esses erros e às vezes até duvidam da credibilidade da pessoa que cometeu o erro. O que esses apressadinho não sabem é que esses “erros” são cometidos até mesmo por falantes nativos. Uma rápida busca em um corpus da língua inglesa mostrará resultados surpreendentes em relação aos erros acima. Podemos encontrar, por exemplo, sentenças como as que seguem abaixo sendo ditas por falantes nativos:
- … and no one have to teach it to you
- No one have an answer to give me.
- We guess no one have money
- He don’t love me anymore.
- I’m sure she don’t study there.
- It’s not what it look likes.
- I don’t know what it look likes inside.
- There is two only.
- They said there is only four of them.
Identificou os “erros”? Lembre-se: esses são “erros” cometidos por falantes nativos da língua inglesa. Uma pessoa que conhece a língua de uso e que, portanto, não está presa a regras gramaticais (prescriptive grammar) ao perceber um errinho desses simplesmente continuará prestando atenção à conversa. Já uma pessoa que ainda não aprendeu nada sobre a língua em uso e continua seguindo o que a gramática diz verá o erro como algo absurdo e monstruoso. Achará que a pessoa é burra!
Se você é professor de inglês preocupado com o real aprendizado dos seus alunos cuidado com a forma como você lida com esses “erros”. A sua reação diante de um “erro” pode fazer com que o aluno crie traumas em relação à língua: medo de falar, medo de participar nas atividades, vergonha de abrir a boca quando questionado sobre algo, etc. Você pode ser responsável pelo desenvolvimento da anglofobia (pavor ao inglês) em seus alunos.
Tenha em mente que muitas vezes o aluno (ou mesmo outro professor) pode cometer “erros” por um simples descuido, falta de atenção, pressa, etc. A pessoa pode não ter errado errou por não saber inglês ou por ser burro. Logo ela não precisa ser tratada com sarcasmo e nem precisa ser bombardeada com regras gramaticais. Lembre-se que herrar é umano (percebeu?). E errar faz parte do processo de aprendizado de uma segunda língua.
Além disso, aprenda também que os erros têm nomes. Isso mesmo! Tecnicamente falando temos diferentes tipos de erros. Como eu disse no início esses erros são identificados até mesmo na escrita/fala de falantes nativos da língua inglesa. Os tipos mais comuns são:
- Omission: ocorre quando a pessoa se esquece de escrever/falar uma palavra em uma sentença: “download clicking here” (download BY clicking here), “is very cold here” (IT is very cold here).
- Addition: ocorre quando a pessoa acrescenta uma palavra a mais na escrita/fala: “I can to help you” (I can help you), “he told to me that” (he told me).
- Mis-selection: ocorre quando uma palavra errada é usada em uma combinação ou sentença: “roundly mistaken” (very much mistaken, profoundly mistaken), “he prefers fairs” (he prefers blondes).
- Misformation: ocorre quando a pessoa usa a forma errada da palavra certa: “he is a good cooker” (he is a good cook), “she runs fastly” (she runs fast).
- Misordering: ocorre quando uma palavra é escrita/falada fora da ordem correta na sentença: “I like very much you” (I like you very much), “she studies also English” (she also studies English).
Em ensino de língua inglesa, nós temos ainda outro tipo de “erro”: “transfer errors”. Esses são aqueles causados por influência da língua materna do aprendiz (ou do professor). Um aprendiz que usa a palavra “pretend” por achar que significa “pretender” (intend) comete um “transfer error”. A pessoa que diz “I’m living here for te years” ao invés de “I have been living here for te years” também comete um “transfer error”.
Alguns autores também classificam os “erros” em “errors” e “mistakes”. Aqui um “error” refere-se ao fato da pessoa errar por não saber o certo (não ter conhecimento do assunto e tentar se comunicar). Um aluno que não aprendeu ainda sobre o Past Simple (didn’t) poderá dizer “he not come to school yesterday”. Ele ainda não aprendeu isso, logo ele comete um “error”.
O “mistake” ocorre quando a pessoa sabe o assunto, mas por alguma razão acabou pisando na bola. Um aluno intermediário que diz “he not came to school yesterday” pode rapidamente se corrigir dizendo “he didn’t come to school yesterday”. Os “mistakes” podem ser causados por causa do cansaço, estresse, falta de atenção, pressa ao escrever, etc. Um erro de digitação, a omissão de uma palavra, a adição de outra, são na verdade “mistakes”. Alguns livros também os chamam de “slips” (deslizes).
Outra coisa a se manter em mente é que nos dias de hoje a língua inglesa perdeu sua referência padrão. David Crystal, renomado linguista britânico e sumidade em relação à língua inglesa e seu desenvolvimento, fala muito sobre esse tema. Isso significa que é difícil sabermos o que é errado hoje em dia. Assim sendo, preze muito mais pela comunicação. Por exemplo, um aluno poderá dizer “I just saw her outside”, um professor afoito e preso à gramatica logo corrigirá dizendo “I’ve just seen her outside”. Mas, o fato é que ambas as formas estão corretas.
Portanto, a recomendação dos especialistas é que você não se preocupe tanto com o erro em si. Não foque o erro. Procure dar atenção ao resultado final do ato comunicativo: a transmissão da ideia. Isso significa que um aluno que diz “he not came yesterday” comunicou sua ideia. Já um aluno que diz “he not wash scar tomorrow” não transmitiu sua ideia: “he won’t wash his car tomorrow”. Em se tratando de comunicação, nós temos duas classificações para os erros: “local error” (aquele que não afeta a compreensão da ideia transmitida, ou seja a pessoa errou algo mas eu entendo o que ela quer dizer) e o “global error” (aquele que afeta a mensagem por completo tornando-a incompreensível). Qual desses você acha que merecem realmente atenção em uma atividade comunicativa?
“Erros” sempre acontecerão. Com o tempo os alunos aprenderão a forma correta e cabe a você, professor, fazer isso acontecer. No entanto, cuidado com a sua atitude em relação aos erros. Seja sutil. Ajude o aluno a se desenvolver. Seja leniente em relação a alguns erros (local errors) em atividades comunicativas. Interfira quando ocorrer um global error, pois eles prejudicam a comunicação e precisam ser sanados o quanto antes. Compreender o erro e as causas (estresse, cansaço, falta de atenção, não saber o assunto, etc) fará uma grande diferença no seu jeito de ensinar a língua e no modo como seus alunos passarão a encarar a língua.
Para esse assunto ficar completo, precisamos falar também sobre fossilization e outros assunto. No entanto, acho que por enquanto está de bom tamanho. Em um próximo artigo ampliaremos esse assunto, deixando-o mais completo.
Referências:
Thornbury, S. (2006). An A-Z of ELT. Oxford: Macmillan
Davies P. and Pearse, E. (2000). Success in English Teaching. Oxford: OUP
Brown, H. D. (2007). Principles of Language Learning and Teaching. New York: Pearson Longman
Scrivener, J. (2005). Learning Teaching: the essential guide to English Language Teaching, 2nd Ed. Oxford: Macmillan

